Voltar para Perspectivas

Mercado e Concessões

ASUR Brasil: o que vem depois da transição estável

A atuação no México, na Colômbia e em Porto Rico abre uma discussão sobre portfólios, autonomia local e governança nas concessões brasileiras.

Mariana Soares · Fundadora e CEO da Auter

· 6 min de leitura

ASUR Brasil: o que vem depois da transição estável

Esta análise integra a cobertura de gestão aeroportuária Auter sobre operação, receita e decisão.

A ASUR já sabe operar Medellín e Corozal na mesma rede. No Brasil, o desafio é fazer 17 aeroportos, quatro contratos e uma operação herdada falarem a mesma língua.

Em 1º de setembro, a ASUR concluiu a compra da plataforma aeroportuária da Motiva e passou a responder por 17 aeroportos brasileiros, de Confins a Bagé, de Curitiba a Imperatriz. Dias depois, José Formoso assumiu como CEO da ASUR Brasil, e a prioridade foi dita com clareza: "assegurar uma transição estável, segura e próxima das pessoas".

Para contextualizar o tema, consulte a plataforma de gestão aeroportuária, o conteúdo sobre software para concessionárias aeroportuárias e os cases de operação aeroportuária. Aprofunde o contexto em outra análise de gestão aeroportuária.

É a prioridade certa para os primeiros meses. Cerca de mil profissionais foram mantidos, as estruturas operacionais seguem como estavam e os aeroportos continuam funcionando. Mas estabilidade é uma fase, não um destino. A pergunta que vai decidir o valor dessa aquisição vem logo em seguida: o que vem depois da transição estável?

A ASUR já conhece a diferença

Rede heterogênea não é novidade para a ASUR. Na Colômbia, por meio da Airplan, o grupo opera seis aeroportos no norte do país. Em 2025, o de Rionegro, que atende Medellín, movimentou 14,1 milhões de passageiros. O de Corozal, na mesma rede, movimentou 52,5 mil. São mais de 260 vezes de diferença sob o mesmo operador.

No México, a relação se repete. Cancún recebeu 29,3 milhões de passageiros no ano; Minatitlán, 158 mil.

A ASUR chega ao Brasil sabendo que hub e regional não se administram com a mesma régua. Essa experiência pesa a seu favor, e é justamente por isso que vale olhar para o que o Brasil acrescenta.

O que muda no Brasil

O que muda aqui não é a existência da diferença, mas o número de camadas em que ela aparece.

A primeira camada é a geografia. Os 17 aeroportos estão nas cinco regiões do país, de Uruguaiana, na fronteira com a Argentina, a

Imperatriz, no Maranhão. Clima, sazonalidade, perfil de tráfego e mercado de trabalho mudam de um sítio para outro.

A segunda é contratual. A carteira reúne pelo menos quatro instrumentos diferentes. O Bloco Sul e o Bloco Central foram arrematados na 6ª rodada federal de concessões, em abril de 2021, com 30 anos de prazo. Confins vem de uma concessão federal anterior, operada pela BH Airport, onde a compra da fatia de 12,75% da Zurich ainda depende das etapas regulatórias. Pampulha foi concedida pelo governo de Minas Gerais em outubro de 2021. Cada contrato tem suas obrigações de investimento, seus indicadores de qualidade e seu ritmo de fiscalização.

A terceira é a herança. A ASUR não começa do zero: recebe sistemas, processos e uma cultura de gestão construídos por outro grupo. Isso acelera a transição, porque a operação segue rodando no dia seguinte. Também significa que o padrão de dados em uso hoje não foi desenhado pela ASUR, nem pensado para o modo como ela opera Cancún ou Medellín.

Estabilizar e integrar são trabalhos diferentes

Estabilizar é garantir que cada aeroporto continue funcionando como funcionava. Integrar é fazer a diretoria enxergar os 17 como um só sistema. São trabalhos de natureza diferente, e o primeiro, quando se prolonga, atrapalha o segundo.

O risco de uma transição bem-sucedida é a estabilidade virar permanência. Cada aeroporto mantém sua forma de registrar movimentos, inspeções e ocorrências. A sede passa a consolidar relatórios mensais montados à mão. A visão de grupo chega sempre depois da decisão. A rede existe no contrato e no organograma, mas não existe nos dados.

A janela para mudar isso é curta. Logo depois da troca de controle, as equipes esperam mudanças, e um padrão comum entra como parte natural da chegada do novo operador. Passado esse momento, o mesmo padrão tende a ser lido como intervenção.

O que faz a rede aparecer

Não se trata de trocar sistemas nem de centralizar a operação. Trata-se de três decisões de gestão.

A primeira é um contrato mínimo de dados. O mesmo evento, seja um pouso, uma inspeção de pista, uma ocorrência ou uma cobrança, precisa ser registrado com o mesmo significado em Confins e em Bagé. Sem isso, nenhuma comparação entre unidades é confiável, por mais sofisticado que seja o painel da sede.

A segunda é comparar por perfil, não por tamanho. A carteira da ASUR já tem grupos naturais. Pelotas, Uruguaiana e Bagé, no interior gaúcho, têm mais em comum entre si do que com Curitiba. Imperatriz, Palmas, Petrolina e Teresina formam outro conjunto, de aeroportos de porte médio do Norte e do Nordeste. É dentro desses grupos que um indicador ganha referência e que uma boa prática se replica com menos resistência.

A terceira é tratar a visão de portfólio como instrumento de governança, não como relatório de fim de mês. A diretoria precisa ver, a tempo de agir, qual unidade se afasta do seu grupo e por quê.

Uma lógica que vem das redes

Há um detalhe na escolha do novo CEO que vale observar. José Formoso passou mais de duas décadas à frente da Embratel e depois comandou a Claro Empresas. Em telecomunicações, a central da capital e a antena do interior respondem há muito tempo ao mesmo centro de operações e ao mesmo padrão de dado. Ninguém administra uma rede de telecom somando planilhas de cada estação.

Os aeroportos regionais ainda operam, em boa parte, como ilhas. Quem vem de um setor que já resolveu esse problema tem uma vantagem clara para enxergar onde uma rede de aeroportos ainda não funciona como rede.

Depois da transição

A ASUR já mostrou na Colômbia e no México que sabe tirar resultado de aeroportos muito diferentes entre si. No Brasil, a transição estável é o primeiro passo. O segundo é fazer 17 aeroportos, quatro contratos e uma operação herdada falarem a mesma língua de dados. É isso que vai separar uma carteira grande de uma rede que se administra como rede.

Na Auter, a plataforma nasceu desse problema: aeroportos de perfis diferentes operando na mesma estrutura, com acesso por unidade ou pelo conjunto e visão unificada dos ativos. O padrão que sustenta o SP Catarina, com 1.500 a 2.000 movimentos de aeronaves e mais de 2.500 serviços em solo por mês, é o mesmo que roda em Bonito e Santa Maria, em Mato Grosso do Sul, integrados em rede. Para redes desse porte, isso significa que um padrão comum de dados não precisa esperar uma troca de sistemas: pode entrar unidade a unidade, dentro da janela em que a integração ainda é bem-vinda.

Fontes e referências

  • ASUR consolida liderança aeroportuária nas Américas com participação em 17 aeroportos no Brasil (comunicado, setembro de 2026): os 17 aeroportos, cerca de mil profissionais mantidos, a fala de José Formoso e a compra da fatia da Zurich no BH Airport
  • Times Brasil: Motiva conclui venda de 20 aeroportos à ASUR (1º/09/2026): conclusão da compra
  • Meio & Mensagem: José Formoso é nomeado CEO da ASUR Brasil (08/09/2026): trajetória na Embratel e na Claro Empresas
  • ASUR: tráfego de passageiros de dezembro de 2025: totais de 2025 por aeroporto no México e na Colômbia
  • Valora Analitik: aeroportos da ASUR na Colômbia: os seis aeroportos da Airplan
  • Passageiro de Primeira: leilão da 6ª rodada (07/04/2021): composição dos Blocos Sul e Central e prazo de 30 anos
  • Bloomberg Línea: CCR vence leilão do Aeroporto da Pampulha (06/10/2021)
#mercado e concessões#asur#grupos aeroportuários#gestão de portfólios#aeroportos regionais

Conheça a abordagem da Auter para gestão aeroportuária e avalie quais processos precisam conectar melhor a administração corporativa às equipes locais.

Agendar demonstração